Muito prazer

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Comecei a vida em Santos e cresci educada de acordo com as tradicionais regras que, muitas vezes, envolvem o machismo brasileiro. Mudei. Fiz faculdade fora. Ganhei liberdade, responsabilidade e identidade. Hoje, com 32 anos, estou casada com um homem fabuloso e espero nosso primeiro filho. Um sonho de gente grande, mas que espero desde criança: o da maternidade. O assunto sempre me fascinou e hoje, me pego com o corpo começando a deformar e sintomas nada agradáveis. Sabe o bom da história? Dou risada de tudo! Da azia, das ânsias intermináveis, da fome colossal e do tanto de cremes de estrias que hoje povoam meu banheiro. Isso é somente a primeira fase. Tenho certeza que, depois desta gravidez, continuarei rindo de mim mesma por inúmeros motivos, inclusive por me pegar em diversas situações que jamais imaginei passar.

domingo, 29 de julho de 2012

O lado B. Sim, ele existe.

Inspirada em outro blog, resolvi contar um pouco mais do que o "maravilhoso mundo das mamães".
Ninguém me contou que aquelas fotos de book de grávidos (papai e mamãe) são tudo uma farsa: mães sorrindo placidamente segurando a barriga é photoshop emocional. Tudo atriz. Eu fui uma delas. Atriz em dia de estréia de espetáculo: linda, maquiada e me achando a mãe do século, saca? Tudo bem, até o sexto mês da primeira gestação é realmente tudo lindo e gente "se acha" porque tanto paparico, sorrisos e tal, vc fala: to abafando! Fato. Mas a verdade é que na gravidez a gente incha, vira uma orca com elefantíase. Não acha posição na cama, se sufoca com a própria barriga, vive num mundo paralelo. Um mundo regido por hormônios. Que ora estão de bom humor, ora não. E ora não ora não ora não...detesto me lembrar disso...defini como 9 meses em TPM. Quem aguenta isso, gente? Coitados dos maridos, namoridos, pais...enfim.
Quando vamos fazer ultrassom ou exames de sangue quase temos um ataque cardíaco de medo. Eu tinha alguns rituais: acendia velas, invocava orixás, jogava pipoca pra cima e sal grosso pra baixo. Fazemos qualquer coisa para que no temido morfológico apareça o osso nasal, vinte dedos e um coração que bate. Ufa. Alívio em ver tudo isso. Imenso.
No início da gravidez vamos todas corajosas levantar a bandeira do parto normal. Porque é o natural, é assim que deve ser. Sou forte. Sou índia. Vamos lá ficar de cócoras e botar uma vida pra fora! Uhu! Só que atrás dessa bandeira estamos si-ca-gando de medo de aquela alcatra arregaçar nossas partes pudendas para todo sempre. Optamos então pela cesárea. SIM OPTAMOS, porque vivemos no Brasil (ililil) e aqui pode se optar por. Mas claro que nas rodas matérnicas vou dizer que não foi opção, que meu filho estava com cabeça pra cima, que não tive contração e muito menos dilatação (na verdade, meu corpo usou esse mecanismo de defesa contra o medo) e dá-lhe cesárea. E quem disse que esse tipo de parto é simples, lindo, pimpão? Um corte de ponta a ponta na sua barriga (do tipo exercício de livro infantil "ligue os pontos", sabe), como um ‘smile’, aquela carinha sorridente, e que quando você olha no espelho, tem vontade de chorar e pensa: putaquepariu, me cortaram de cabo a rabo, nunca mais vão me amar. Mas isso não é nada perto do que esta por vir: o bebê. Sim, ele.
Dizem os livros, revistas, amigos e parentes que você deve se sentir, (veja bem DEVE no sentido de dever, não de probabilidade), arrebatado por uma amor incondicional assim que pega seu filho nos braços. Annnn. Tenho uma amiga foi um pouco mais além, mas cada um sabe de si, né? “Tirem esse verme daqui” foi o que ela proferiu quando viu seu bebê. Acontece, gente. Quem é mãe sabe que acontece, mesmo que vocês abafem isso e guardem num baú a 18 palmos da terra esse tipo de emoção. Isso volta hein? Hora ou outra isso volta pra você. E melhor jogar pra fora. E não precisa ser taxada de psicopata por isso, os hormônios estão ai pra isso, pra culpar-mo-lhos. Assim como a depressão pós parto, baby blues e qualquer outra coisa que você inventar para justificar vão acreditar, pode ter certeza. O povo adora uma desgraça.
Lindo. Uma criança saudável, faminta, com cabelinhos até! Mas que chora pra caralho. Uma criança que é capaz de chorar por 10 horas seguidas. Não há amor incondicional que suporte o Baby Blues sem sucumbir. Nesse momento você olha para a janela da maternidade. Confere se é alta (sim, é). Pensamentos suicidas ou homicidas (que inclui todos aqueles parentes distantes que vão te ver pelada no hospital), passam a todo instante na cabeça das pobres mães. É, pobres mães, porque a gente não tem culpa de ser tipo os Nardoni nessas horas. É uma coisa de Deus, ou do diabo (???). Sei lá. Mas não é da gente. É do universo, porra.
Daí você leva o bebê pra casa, já sentindo alguma afeição entre um bocejo e outro, entre uma regurgitação e outra, entre um putaquepariu e outro. Ele ri, você ri, ele chora, você chora, ele ri, você chora, você chora e ele chora, choramos. Choramos muito. Choramos por cansaço, por não saber lidar e por solidão. Sim solidão. Sentimos uma solidão intrínseca-visceral. Mesmo com alguenzinho grudado em seu peito, nos sentimos sozinhas. Adultas sozinhas, adultas crianças. Somos crianças e mais uma vez choramos. Desamparadas pela vida e por todos os nossos entes queridos mesmo que eles estejam no mesmo cômodo que nós. Não dá pra explicar. Só quem já foi mãe de um bebê de 1 mês SABE SIM do que tô falando. Não dissimulem. Eu senti muuuuuito a falta da minha mãe. Queria muito ela perto de mim. Não para cuidar do bebê. Para cuidar de mim mesmo, ora.
Daí o bebê cresce um tico, já levanta aquela cabeça balançante tipo cachorrinho-de-porta-mala-de-carro-de-pobre e você pensa WOW, tomara que comece a andar logo, minhas costas não aguentam mais esse peso. Quem ele pensa que eu sou? Um burro de carga? E lá vai você ver emails e conferir a timeline do Face, do Twitter, do Foursquare, do Instagram, as últimas notícias, os vídeos mais legais, os emails das amigas, as mensagen do whatsup com todo mundo indo para o happy hour e você aqui com o pingente no colo. É maternidade, gente. Uns 4 ou 5 meses em um mundo paralelo até você voltar a se sentir gente (mulher) novamente encarar sua calça jeans linda e colocar brincos (a gente fica tanto tempo em casa de pijama que brinco acaba atrapalhando. É assim). Vai ao banheiro com ele te sorrindo no bebê-conforto posicionado estrategicamente a frente do vaso sanitário, toma banho enquanto ele cochila escorado por almofadas na sua cama “e se ele virar e cair?”, daí você corre do banho (sem exagüar o condicionador direito, sabe?), enrolada precariamente numa toalha e pingando sangue. Ahhh sim!!! Ninguém me disse que eu hemorragiria por quase 90 dias após o parto. E que gastaria em absorventes o equivalente a um Sandero 2013.
Fora as vezes que você tem que almoçar com com ele penduradinho nas suas tetas. Quem nunca,  hein? Tetas. Tetas sim. Seios não pra quem nunca amamentou. Porque a gente se sente uma vaca. Uma vaca esperando a hora do abate, que nunca chega. Quantas vezes esqueci, ou não deu tempo de jantar, de tomar banho, adiar o xixi até sua bexiga implorar por um Pyridium na veia?
Fora a vaidade. An? Oi? Que vaidade? Passamos a evitar colares, pulseiras, brincos e anéis, porque machucam os bebês e eles podem arrancam e se você tiver um milésimo de segundo distraída eles enfiam na boca e engolem felizes o seu anel de ouro e brilhantes da Vivara que você ganhou antes da criança nascer (isso é muuuuito importante, gente! Porque depois no nascimento é tanto gasto que...jóia? ahahahahahaha, nem no catálogo, bem. Até porque não dá para usar. Machuca, lembra?) Pois é. Eu nunca amei tanto meu corretivo quanto nesta fase. Acordava e passava sem me olhar no espelho para não ter um ataque logo que abria os olhos pela manhã (sim, porque já tinha aberto os olhos umas 4 ou 5 vezes naquela noite).
Daí você fica imaginando como será sua "volta ao mundo real", sabe? Dá vontade de ficar presa no trânsito de horas, colocar roupas de trabalho, sair de casa. É isso. Sair. Você só quer sair e sumir por alguns momentos. Daí você sai e se sente culpada. Louca e culpada. Daí você chora. Chora. É fodaaaaa.
Daí a criança começa a andar. Que legal! Essa fase é mágica, se você mãe, for maratonista ou contorcionista. Por que só assim pra dar conta de correr atrás de 80 centímetros hiperativos all day long. Você cansa. Cansa demais e pensa: porque ele foi andar tão rápido meu Deus?! Na verdade eles não aprendem a andar e sim a correr. Já nascem Robson Caetano. Dá dor nas costas, lombar, cervical...
Com o crescimento começa a aparecer alguma independência. Ufa!
Você já pode fazer um xixi enquanto ele fica na sala enfiando o controle remoto na boca, e você pede pra tirar, e ele põe e você pede e ele põe, ad infinitum. Daí você desiste. Vai cortar cebola e aproveita pra chorar botando a culpa na maldita. Mas lembrem-se: não é a cebola que te faz chorar, é o seu filho, não se enganem. Ter um bebê exaure, suga, chupa sua força. Dizem que na adolescência essa progressão aritmética piora. Oremos. Falando em orar, eu até rezava antes de dormir, quando grávida. Depois n-u-n-c-a mais lembrei. Esqueci o Pai Nosso, o Salve Rainha, a Ave Maria. Só lembro do Credo. Credo que canseira, credo que feia que eu tô, credo que gorda, credo que vida!!!!
Vida social? Esquece. Vida social de mãe de bebê é ir no supermercado e compartilhar os benefícios do Prebio1 no corredor de leite em pó. É saber que a Pampers absorve mais xixi que a Huggies, mas pra cocô esta é excelente. E o cocô hein? Nem vou entrar nisso...
Nessas horas seus peitos já estão no chão, junto com sua auto estima. Peitos no chão, perna mijada, feijão no dente, cabelo bicolor. Reze pra estar na onda do ombrè hair na época que seu filho nascer. Ou melhor antes de nascer, porque na gravidez é expressamente proibido tingir o cabelo (mas isso burlamos, viu ginecos? Temos técnicas transcendentais para isso).
E dá-lhe pediatra. Pobre médico de mãe de primeira viagem; esse ser é o que mais sofre. É cada pergunta, que hoje, quando lembro que chorei como se estivesse em uma sessão de terapia em meio a uma crise existencial, durante a primeira consulta dele no pediatra, me faz querer morrer. Mentira. Foda-se o médico. Ninguém mandou ser pediatra.
Aí chega o momento dele frequentar a escola. Você começa a vislumbrar a independência. Dura pouco, mas vislumbra sim. Mas daí você tem que trabalhar, ir ao mercado, fazer comida, chorar, trabalhar, chorar, tomar banho, chorar e chorar e chorar. Daí você vai buscar na escola. A professora te faz um milhão de perguntas que te remete: você não sabe cuidar da criança, mãezinha. ODEIO maezinha. O que você fez durante o tempo em que ele está na escola? Viveu? Não. Sobreviveu a mais um dia. Tipo AA – mais um dia. Se você for casada, chega a noite, entre um acordar e outro de seu filho, vem maridão encostar o pé gelado no seu. Se ele tiver sorte, você nem acerta o saco dele. Mas a intenção é essa. E quando você não tem marido? Gente aí deve ser pior ainda porque você se sente uma miserável por nem ter um pé gelado pra se enroscar com o seu....Credo. Olha aí o Credo!
Fora isso tudo aí supracitado, tem as birras em locais públicos e não públicos, tem os pesadelos, tem o terror noturno, tem o "vamos brincar?" quando você chega do trabalho cansada e co dor no corpo todo, tem o "quero dormir com a mamãe", tem o...a lista é infinita e meu filho tem 2 anos e dois meses.
Ser mãe é padecer. O paraíso é história pra boi dormir.
PS1: Claro que tem o lado A, mas esse todo mundo conta. Quando sarar minha TPM eu falo mais disso.
PS pra mim: excluir esse post do blog assim que o João for alfabetizado.